
Jorge Palma – Voo Nocturno
“Olá! Sempre apanhaste o tal comboio?
eu já perdi dois ou três
entre o ócio e as esquinas
ganhei o vício da estrada
nesta outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez”
— “Olá (Cá Estamos Nós Outra Vez)”
Depois de uma escala a “Norte” em 2004, Jorge Palma volta a aterrar em estúdio para nos apresentar uma nova colecção de canções originais, a 11ª nos 30 anos de carreira que leva em nome próprio. E a terceira desde o seu triunfal regresso aos originais, em 2001, com “Jorge Palma”.
Nessa altura, Palma regressava aos discos com um estatuto de intocável: um cantor-compositor que, sem gravar havia quase dez anos, arrastava multidões aos seus concertos e fora adoptado por uma geração que era demasiado nova para se recordar das edições originais de muitas das suas canções. A longa “travessia do deserto” fora do estúdio tinha apenas sido entrecortada pela experiência eléctrica do Palma's Gang e a sua participação no “super-grupo” Rio Grande, ao lado de João Gil, Rui Veloso, Tim e Vitorino.
Ao longo desses dez anos, Jorge Palma foi finalmente compreendido por aquilo que era: um magnífico escritor de canções de factura clássica, capazes de unir muita gente diferente à volta de uma mesma emoção traduzida em música.
Nada disto seria de esperar face ao percurso de Palma: aluno brilhante de piano na infância, integrante dos Sindikato, grupo pioneiro do jazz-rock em Portugal no início da década de 70, arranjador e orquestrador para gente como Amália Rodrigues ou Rui de Mascarenhas e compositor de publicidade durante os anos 70, músico de rua em Paris no final dessa década... E autor de álbuns em nome próprio bem recebidos pela crítica mas que, por esta ou aquela razão, nunca obtinham o reconhecimento comercial que mereciam.
Foi precisa a tal “travessia do deserto” para se perceber o tesouro que existia no “songbook” de Palma. “Dá-me Lume”, “Deixa-me Rir”, “Bairro do Amor”, “Canção de Lisboa” ou “Frágil” tinham sido êxitos de rádio, mesmo que não de vendas; mas canções menos evidentes como “Terra dos Sonhos”, “Portugal, Portugal”, “A Gente Vai Continuar”, “Jeremias o Fora-da-Lei”, “Minha Senhora da Solidão” ou “Acorda Menina Linda” tinham-se tornado em verdadeiros hinos.
A esses hinos — recuperados nos concertos de 2002 do Teatro Villaret, em Lisboa, registados para o duplo ao vivo “No Tempo dos Assassinos” — “Jorge Palma” e “Norte”, os dois primeiros álbuns após o regresso a estúdio, vieram juntar mais uma mão-cheia de clássicos (“Tempo dos Assassinos”, “Quem És Tu de Novo?”, “Passeio dos Prodígios”, “Norte”...).
E, agora, a nova escala de estúdio, “Voo Nocturno”, traz o improvável: 12 clássicos em 12 temas. Todos inéditos em disco, mesmo que já conhecidos (“A Velhice”, adaptação de um texto de Samuel Beckett, foi composta para o espectáculo de João Lagarto “Começar a Acabar”) ou tocadas em recentes concertos — como “Gaivota dos Alteirinhos” (inspirada pela praia da Zambujeira do Mar onde o músico passa férias), “Vermelho Redundante” (uma letra de Carlos Tê) ou o primeiro single do álbum, “Encosta-te a Mim”.
Musicalmente, “Voo Nocturno” está mais próximo do Palma “clássico” dos anos 1980 e de álbuns como “O Lado Errado da Noite” ou “Bairro do Amor”. Produzido por Flak, dos Rádio Macau e velho cúmplice dos tempos do Palma's Gang, “Voo Nocturno” é um álbum “de banda”, onde o grosso das canções é acompanhado pelo actual grupo de palco de Palma, os Demitidos. Nascidos das sessões de gravação de “Norte”, os Demitidos reúnem o guitarrista Marco Nunes, ex-Blind Zero; o baixista Miguel Barros e o baterista André Hollanda, ex-Zen; e o teclista Miguel Ferreira, integrante dos Clã e Blind Zero. Um outro Blind Zero, o guitarrista Pedro Vidal, e ainda Gabriel Gomes e Pedro Sotiry, dos Tjak, e Flak são os outros convidados do álbum.
O título vem do romance que Antoine de Saint Exupéry (o autor do “Príncipezinho”) publicou em 1931 inspirado pelas suas experiências na aviação postal na América Latina. E faz todo o sentido que assim seja: em comum, o escritor e o compositor têm a capacidade de traduzir em palavras simples emoções complicadas e de sonhar com o apelo da estrada — aérea ou terrestre.
Este “Voo Nocturno” dura apenas 45 minutos, mas é inesquecível.
“neste voo nocturno sou mais leve do que o ar
neste voo nocturno não sei onde vou acordar”
— “Voo Nocturno”
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